A região amazônica ainda é compreendida por poucos. Isso leva a ações incompatíveis com os adjetivos. Para este post, contamos com a obra A floresta amazônica e suas múltiplas dimensões: uma proposta de educação ambiental. Uma produção de nossos parceiros: LMF e LAPSEA do INPA.

A Amazônia sempre viveu de “mitos”, começando pelo seu nome que deriva das amazonas (da mitologia grega: mulheres fortes e corajosas). No entanto, a região oferece um pacote de mal-entendidos e sonhos. Um objeto de meias verdades e desejos, ou seja, Mitos.

A compreensão e a desconstrução desses mitos, auxiliam na avaliação mais precisa e pragmática de projetos de desenvolvimento regional. Ou seja, é possível ponderar os benefícios e impactos de iniciativas de empreendedorismo na Amazônia. Em especial aquelas que envolvem transformações do ambiente natural.

É importante ressaltar, porém, que o ecossistema amazônico não é composto apenas por elementos geofísicos e biológicos. O componente humano e seus respectivos grupos sociais está muito presente. Além disso, a população local possui uma histórica relação social com a floresta amazônica.

Portanto, “compreender e desconstruir” mitos para análises pragmáticas de iniciativas de desenvolvimento não impedem sua manutenção cultural.

Eis alguns mitos:

Mito da Homogeneidade: Associar a Amazônia à um tapete verde plano e uniforme é comum. No entanto, a região extrapola os limites das “terras baixas” (Vale Amazônico). Vai do o escudo da Guiana (Norte) até o escudo Brasileiro (Planalto Central). O mito do relevo plano é mantido pela diferença topográfica do Complexo Solimões/Amazonas (rio) até sua foz (Ilha de Marajó), que não passa de 100 m. Também, pela altitude média de Manaus, que é de ± 100 m acima do nível do mar. Mas, poucos lembram que é no Amazonas que está localizado o pico mais alto do Brasil (Pico da Neblina = 2.995 m de altitude) e na floresta, existem diferenças topográficas que ultrapassam 70 m de diferença (do ponto mais alto ao mais baixo). No componente social, há quem imagine que é uma terra de “índios”. No entanto, somos 25 milhões de pessoas entre descendentes de portugueses, espanhóis, italianos, japoneses, alemães, libaneses, quilombolas, índios e muitos outras etnias.

Mito do Pulmão do Mundo: Este talvez seja o mito mais famoso da Amazônia. Um pulmão é um órgão responsável pela respiração, que inspira oxigênio (O2) e expira dióxido de carbono (CO2). A floresta faz fotossíntese durante o dia, ou seja, consome CO2 e libera O2. A noite, o processo é inverso. Pesquisas de +30 anos de monitoramento dessas florestas sugerem que o balanço final é positivo. Ou seja, a floresta MAIS produz O2 que consome.

Mito da Internacionalização: Bastante controverso e muito usado para criação de narrativas e justificativas. Existem dois pontos de discussão acerta do termo em si: o primeiro, a relação econômica (abertura de mercados, compartilhamento de cultura, etc.) e a segunda, a transferência de soberania. No que se refere a “trocas econômicas, culturais e políticas”, a presença de empresas internacionais aqui e empresas nacionais lá fora, já diz tudo. Já a questão da soberania, houve uma disseminação de Fake News sobre livros escolares do exterior dizendo que esse território seria território internacional, a muito tempo foram desmentidas pela mídia.

Mito do Boto, Mapinguari e outros: Esses mais folclóricos. Mas, são tratados com o máximo de respeito pelos moradores nativos, desde o ribeirinho até pesquisadores Drs. O Boto que de noite se transforma num belo homem de chapéu branco, o Curupira que perturba caçadores com suas traquinagens, o rebojo causado pelos movimentos da Cobra Grande nos rios, o protetor “Juma” índio valente que protege as matas e o Mapinguari, misteriosa preguiça gigante que mata e come caçadores. Mitos e lendas que se estendem ao longo de toda a vastidão amazônica. Mantidos pelo interesse pela memória das populações, tem relação direta com as formas de conservação da identidade coletiva de grupos humanos. Transmitida de geração em geração, por meio de estórias e contos.

Mito das Árvores Gigantes: Todo turista que visita o Bosque da Ciência tira uma foto ao lado (ou à frente) da famosa “tanimbuca”. Uma árvore emergente, com +1 m de diâmetro. Isso ajuda a manter este mito. A partir de estudos quali- quantitativos das florestas maduras da região, é sabido que na média, mais de 90% de todas as árvores possuem diâmetro inferior à 40 cm.

A manutenção e preservação do folclore e da cultura regional é primordial. Mas, alguns mitos precisam se esclarecidos para melhorar a qualidade dos projetos na Amazônia. Criar áreas exclusivas à conservação/preservação integral da natureza, imaginando-se que se trata de uma região despovoada representa bem a necessidade dessa desmitificação. Depositar responsabilidade de monitoramento das florestas em seres míticos é outro exemplo. Por fim, sem essa de “A Amazônia é patrimônio mundial”. A Amazônia é nossa. Cabe a nós exercermos o direito e dever de manejá-la sustentavelmente.